sexta-feira, 7 de junho de 2013

Estou esperando por você.
Eu, que desaprendi a esperar. Que deixei a urgência do cotidiano me apressar. Que asfaltei os caminhos com vontade de chegar mais rápido ao coração do mundo e acabei transformando em cinza o que antes era terra vermelha e fofa. Que tantas vezes bebi coca-cola quando o meu corpo pedia por água, que passei noites dançando em claro êxtase para sentir algo além da dor de estar viva, que horizontalizei minha ansiedade em tragadas mentoladas para mostrar que esse corpo era meu e eu poderia fazer o que eu quisesse com ele.
Levei anos para descobrir que eu era livre e três meses para compreender que a liberdade que eu havia conhecido ainda não era liberdade. Era apenas um fragmento de libertação em relação à moça comportada que esperavam que eu fosse. Primeiro a família, escancaradamente. Depois todo o resto. Troquei de garras sem saber. Do núcleo familiar aos tentáculos sedutores do mercado. E este último é cruel com tudo o que respira. Transforma vocação para a liberdade em talento para a alienação. Meu sonho era libertar com poesia, mas acabei enganando com publicidade. A mim e aos outros.
Agora estou esperando por você.
Não pense que te amei desde o momento em que soube que você viria. É que a essa altura da vida, com formação acadêmica voltada pra educação, eu já sabia que maternidade era coisa séria, e achava que eu não conseguiria ter tanta responsabilidade em minhas mãos depois de ter vivido de maneira tão leviana. Durante os três primeiros meses, vi a identidade de mulher urbana e livre que havia criado pra sobreviver em São Paulo morrer diante dos meus olhos. Sem cigarros. Sem porres. Sem drogas. Sem baladas. Sem receber amigos em casa. Sem procurar por eles. Sem achar que os tinha. Sem internet. Sem emprego. Sem perspectiva. Sem nada que pudesse me confortar. Sem nem mesmo conseguir escrever.
Chorei de medo no sofá, ao ver os dois risquinhos. Chorei no chuveiro pra ninguém ver. Chorei de tristeza. Quis fugir e quis morrer, e morria um pouquinho a cada vez que alguém falava que toda essa minha confusão poderia te fazer algum mal. Senti raiva de todos que me tratavam, por pura ignorância, como se eu fosse uma embalagem de bebê. Senti raiva por me sentir dependente da boa vontade alheia. Senti raiva por me sentir extremamente sozinha e desamparada quando eu mais precisava de colo. Senti raiva por não ter mais o direito de me anestesiar com qualquer droga dessas de fim de semana, que me transportasse para uma situação mais relaxada, divertida e prazerosa. Senti culpa por me achar mesquinha e superficial.
Senti. Senti. Senti. Até chegar a um imenso vazio.
Depois do vazio, eu vi seus movimentos pela primeira vez. Perninhas pra cima e bracinhos se unindo. Preto e branco colorindo a minha vida! Foi nesse dia que te amei pela primeira vez. Que as minhas raízes rasgaram o asfalto e me mostraram novamente que a estrada que me percorre a alma é feita de terra fértil. Nesse dia me senti mais forte pra enfrentar o que viesse. Passei a compreender que a espera de uma mulher grávida nem sempre é pacífica.
Daqui pra frente tenho um milhão de escolhas pra fazer e sustentar. A escolha do tipo de parto, do obstetra, do local mais humano para que você se sinta confortável na sua chegada. A escolha do local onde vou morar. De quando vou voltar a trabalhar. De que tipo de trabalho vou ter. Das palavras que vou usar para desbaratinar ou enfrentar cada pessoa que der um conselho esdrúxulo em relação à educação que penso em te dar.
Mas a maior escolha que fiz – e sim, foi uma escolha e não uma obrigação, mesmo que eu e seu pai não tenhamos planejado a sua chegada – foi a de ter você, te deixar crescer e se nutrir de mim, de me deixar ser transformada tão intensamente e em tão pouco tempo por você. Que bom que eu escolhi ter você apesar de todo o medo que eu senti.
Nunca me senti tão forte.
Olho pra baixo e vejo o barrigão que de uma semana pra cá, resolveu despontar. Enorme. Redondo. Gordinho. Deito, estico as pernas e sinto uma bolota dura concentrada do lado direito, um pouco abaixo do umbigo. Caramba, é um mini você. Pela primeira vez depois de adulta, posso dizer que amarei alguém para sempre. Sem me sentir piegas.
Eu não sei mais quem eu sou. Não sei mais qual é meu lugar no mundo. Não sei quanto tempo essas indefinições vão durar. Mas não saber é finalmente um grande ufa. Estou livre de mais uma identidade que há tempos já não me deixava caber em mim. Uma identidade que me ensinou muito, mas que não me servia mais. A única coisa que sei é que a guerra entre a mulher e a mãe acabou. Que agora as duas estão juntas por uma mesma missão: fazer a maior revolução da minha história. E entregá-la de presente pra você.


10 comentários:

  1. Mas a maior escolha que fiz – e sim, foi uma escolha e não uma obrigação, mesmo que eu e seu pai não tenhamos planejado a sua chegada – foi a de ter você, te deixar crescer e se nutrir de mim, de me deixar ser transformada tão intensamente e em tão pouco tempo por você. Que bom que eu escolhi ter você apesar de todo o medo que eu senti. <3

    Obrigada amiga por fazer parte disso tudo, te amo <3

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  2. Que DEUS ilumine sua gravidez!
    e este bebê nasça com muita saúde, esperteza, seja MUITO bagunceiro, alegre, feliz e dê alegria pra casa INTEIRAAAAAAA !
    UAHUAHAUH beijinhos
    byrafaelle.blogspot.com.br

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  3. Que emocionante esse texto
    Que esse bebezão venha com muita saude
    http://noembalodaredee.blogspot.com.br/

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  4. Lindo o texto!
    Realmente me emocionei *-*
    bjus

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  5. Nossa, emocionada apenas haha http://psmilena.blogspot.com.br/

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  6. Que lindo, realmente tocante e emocionante!
    http://e-girlie.blogspot.com.br

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  7. Que lindo!
    Guarda e mostra pro seu bebê quando ele for grande o suficiente pra entender das coisas...
    Certeza que ele vai se emocionar!
    Tudo de bom pra vocês!
    Beijocas!

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  8. Que texto mais lindo!!
    É de deixar qualquer uma emocionada... Seu bebê vai amar ler este texto! é a coisa mais linda :)
    Beijinhos
    Mágica nas Unhas

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  9. Imagina quando ele estiver grande e ler essa carta??? Que coisa linda <3

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Quem escreve

Quem escreve
Graziela Almeida, 29, Paulistana. Filha da João e Izabel. Irmã da Rita, Gabriela e Sandro. Casada e muito bem casada com Julio Cesar. Sou mulher quando tenho que ser e menina muleca em 90% do meu dia, feliz e sonhadora. Apaixonada por fotografia e musica. Sou um monte de coisa, mas só quem me conhece e convive comigo sabe, no mais, só desvendando mesmo.

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